O GRANDE PROXENETA.
Gilberto Tupinambá era um homem de princípios. No caso, dois princípios.
- Toda mulher tem seu preço! – era o primeiro.
Por conta disso, dedicava-se ao proxenetismo. Não havia famosa ou global com quem não pudesse intermediar uma relação carnal. Mandara desenvolver com empresa especializada um software onde armazenava preços, condições e peculiaridades das cobiçadas mulheres.
Mas não era essa sua especialidade. Seu ganha pão era fazer preço a mulheres comuns, essas fêmeas voluptuosas que por vezes suscitavam a perversão de algum devasso endinheirado.
E, para isso, dominava técnicas diversas. Tinha contatos na polícia ou onde fosse preciso para detectar vícios, dívidas ou sonhos irrealizáveis que pudessem revelar que bem material ou soma monetária amoleceria a virtude dessas moças. As cocainômanas eram de fácil convencimento. Casadas, se tivessem amantes, podiam ver no silêncio um preço para se entregaram e, com alguma persuasão de Gilberto, acresciam uma quantia em dinheiro para minorar o sacrifício.
Seu passado era misterioso. Corriam boatos de que fosse um padre excomungado; outros diziam que um acidente eqüestre o tornara impotente. Essas ilações fantasiosas eram aventadas em decorrência de seu segundo princípio:
- Só o celibato pode permitir ao homem suportar a existência!
Aparentemente contraditórios, o segundo princípio de Gilberto era decorrência lógica do primeiro. Se toda mulher tem um preço, nenhuma vale nada!
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Escrito por Paulo Magalhães às 11h17
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No dia 6 de outubro de 2003 um cliente contumaz de Gilberto, Zeca Dias, conhecido playboy, ligou exasperado:
- Preciso dos seus serviços!
Tratava-se da diretora de RH da empresa do pai dele, onde fingia que trabalhava.
- Coisa de louco! Loira digna de propaganda de cerveja, uns peitões enormes!
- Qual o nome dela?
- Nome? – Zeca não se lembrava. Ligou dali meia hora depois de confirmar com alguém:
- Eliza, Eliza do RH, é assim que o pessoal chama.
Gilberto pediu adiantados mil dólares para averiguações preliminares e prometeu ligar em um mês, com dossiê completo.
Ligou dali uma semana:
- Zeca?
- Giba!
- A coisa vai ser difícil...
- Não brinca!
Gilberto verificara a ficha policial da moça sem encontrar podres. Não tinha parentes doentes que precisassem de dinheiro para tratamento. Não usava drogas. Não cobiçava carros luxuosos ou viagens internacionais. Aparentemente não tinha amantes secretos, nem vícios, nem desvios de comportamento. Não tinha inimigos e tinha poucos amigos. Era um caso perdido.
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Escrito por Paulo Magalhães às 11h16
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Mas Gilberto não renegava seus princípios:
- Calma, toda mulher tem seu preço, mas esse parece que vai ser alto.
Gilberto usou de táticas mais arrojadas. Tinha uma empresa de fachada instalada num prédio suntuoso da Faria Lima: Tupinambá Valores Humanos. Seria, para os crédulos, uma head hunter. Facilitava muito seu trabalho de pesquisa. Recrutava as mulheres para entrevistas fictícias de emprego e aplicava variados testes de personalidade, com ajuda de sua equipe de psicólogos. Em casos extremos, fazia uma entrevista pessoal.
Eliza era um caso extremo.
Gilberto entrevistou-a pessoalmente. Era realmente um troço inumano. Elegante, refinada, gostosa. Até seu hálito era perfumado.
Gilberto nunca vira um caso desses. Mas estava convicto que, com paciência e trabalho duro, acharia alguma brecha naquela armadura.
Era sexta feira e resolveu assistir a uma peça nova em cartaz no teatro do hotel Maksoud. Precisava espairecer e o texto baseado livremente em Shakespeare parecia apropriado.
Não resistiu ao primeiro ato e foi se refugiar no bar do Hotel, tomar um café. Depois do terceiro café e do sexto conhaque, a peça terminou e um fluxo de espectadores cruzava o recinto, comentando o espetáculo.
Gilberto pensava em indagar ao garçom se haveria problema em acender um charuto quando um toque sutil em seu ombro o fez voltar-se para uma moça:
-Seu Gilberto, que coincidência!
Era Eliza, deslumbrante num vestidinho preto adequadíssimo para uma moça elegante ir ao teatro.
Gilberto cancelou mais um conhaque, e convidou-a a sentar.
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Escrito por Paulo Magalhães às 11h15
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Ela pediu uísque com soda.
Era a ocasião que pedira a Deus para buscar nela uma franqueza, uma fissura que permitisse ao canalha do Zeca fazer seu preço.
Conversaram longamente. Ela tomou vários uísques com soda e ele acabou não resistindo a tomar mais um ou dois conhaques.
No final da noite, despediu-se dela, consternado com os resultados da conversa.
Logo cedo, no dia seguinte, ligou para o Zeca, na empresa. Teve que voltar a ligar depois do almoço, porque o Zeca só dava expediente depois das duas.
- Zeca?
- Tupi, seu torpe! E ai, fez a cabeça da mulher?
- Estou abandonando a profissão!
- O que?
- Ela é incorruptível, não há como fazer preço. Te devolvo os mil dólares com juros e multa. Já disse, estou largando a profissão.
- E seus princípios? “Toda mulher tem um preço!”.
- Estou abdicando desse princípio...
- Que é isso? Se não conhecesse de cor teu segundo princípio, já tava achando que você queria me passar a perna!
- Pois é, este é outro princípio que abandonei faz poucas horas...
FIM
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Escrito por Paulo Magalhães às 11h15
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O PERIGOSO COMUNISTA
- Eu sou um comunista!
Geraldo bradava, convicto, desferindo com a mão espalmada potentes e sonoros tapas na mesa de lata do botequim da faculdade.
- Vai derrubar o chope, Geraldo! – seus colegas marxistas advertiam.
Geraldo estudava Ciências Sociais na USP. Iria de casa até lá de ônibus, recusando o carro e o motorista que o pai capitalista providenciava, se isso não significasse desempregar o serviçal. - É alienante reduzir um produtivo trabalhador a condutor autômato das elites! – resignava-se.
Para não passar vergonha diante dos companheiros acadêmicos, saltava do jaguar numa viela deserta e seguia dali a pé, resoluto em sua causa libertária.
Aquela tarde, na hora do almoço, tivera uma leve discussão a mesa com sua mãe, dona Sarita, que convalescia da última aplicação de botox.
- Filhote, não é educado comer com a cabeça coberta! – ela comentou, reparando indignada na boininha vermelha do Che Guevara que ele insistia em usar em casa, só para atormentá-la.
- Eu não me prendo a convenções comportamentais burguesas.
- Deixa o menino, Sarita... – preveniu doutor Geraldo, que reputava as manias exóticas do filho a uma fase de adolescente.
Ao final da refeição, quando a copeira já retirava os restos de manjar branco, Geraldinho se levantou: - Vou pra aula, tchau.
- Deus te acompanhe, meu filho! – dona Sarita, inadvertidamente, desejou.
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Escrito por Paulo Magalhães às 15h51
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- Eu já te disse que Deus não existe! – Ele respondeu batendo a porta e deixando a mãe choramingando nos ombros do pai.
- É uma fase, Sarita! É só uma fase! Na idade dele eu me dizia livre pensador, lembra? – consolava doutor Geraldo.
Com a eloqüência inflamada pela ríspida despedida, Geraldo reunira ao redor de si no Kapital – assim chamavam o boteco da faculdade – uma pequena multidão contrita que ouvia sua mensagem aos proletários.
Quando derrubava o terceiro chope, para marcar o fim de sua arenga com violento tabefe na lata da mesa, reparou numa jovem que o observava de longe, numa mesa de canto, admirada.
Lembrava uma gravura que Geraldo vira uma vez, uma alegoria da República Francesa representada nas graciosas formas de uma camponesa robusta, mas jovem; resoluta, mas sensual, com os cabelos longos e anelados cobrindo um dos seios que escapava de uma blusinha em farrapos. Na mão direita o pavilhão nacional francês, na esquerda algo como um ramo de flores - ou era uma cornucópia? – Geraldo não lembrava. Do que ele lembrava era do olhar mirando o infinito, um olhar pacífico e contemplativo. Misterioso.
Era o mesmo olhar com que Lenina o admirava.
- Lenina? – Geraldo se empolgou quando foram apresentados.
- Meu pai quis fazer uma homenagem.
Lenina vestia-se à neo-hippe, com sainhas diminutas de panos indianos e blusinhas ainda menores com estampas de paramécios. Completava com bijuterias compradas nas diversas feirinhas que se espalhavam pelo campus. Usava os oclinhos azulados da Janes Joplin e tinha uma tatuagem com o dístico “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás!” no ombro esquerdo.
- Já leu alguma coisa dele?
Discutiram animadamente a vida de Che, passagens controversas, sua infância, e acabaram quase em lágrimas com o desfecho de sua vida.
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Escrito por Paulo Magalhães às 15h47
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Geraldo já não derramava o chope, cujas bolachas de papelão se acumulavam diante deles.
Lenina cursava o último ano de filosofia, morara com o pai - ex-exilado que se fixara na França - por quatro anos e falava francês fluentemente. Conhecera boa parte da Europa de trem e mochila. Atualmente fazia trabalho voluntário em creches e auxiliava a mãe, doutora em psicologia, num cargo de confiança da Secretaria de Cultura do Estado.
- E você, Geraldo, o que você faz?
Geraldo derrubou o chope, atrapalhado.
- Acho que agente devia ir para um lugar mais confortável – Lenina sugeriu, recolhendo os cacos do chão.
Geraldo a seguiu em direção ao ponto de ônibus. Passavam pelo estacionamento da faculdade quando um celular tocou.
- Alo! Kiki? Beijo, linda. Leopoldo, hoje?
Geraldo ficou atônito com aquele símbolo explícito de consumismo, cheio de luzes e uma capinha reluzente, nas mãos de sua musa.
- Tchau, linda, agende se vê amanhã na academia...
Geraldo ainda se recuperava do choque quando Lenina tirou da bolsa de couro cru o controle remoto que destratava as portas da Cheroky. Não pode se controlar e começou a chorar nos ombros dela.
Horas depois, nus na cama do motel, faziam planos para o casamento.
Geraldo concedeu que houvesse cerimônia religiosa, na Igreja de Nossa Senhora do Brasil, mas exigia que fosse celebrada por um padre progressista!
FIM
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Escrito por Paulo Magalhães às 14h00
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