A PROVA ONTOLÓGICA

Fernanda tinha um único sonho na vida: ter um orgasmo sem se sentir pecando.

 

Mas isso lhe era impossível. Católica praticante, acreditava que se fizesse sexo sem a benção do sagrado matrimônio, Jesus a puniria.

 

Abraçou, por isso, desesperadamente, o objetivo de se casar o quanto antes, para não se perder na danação eterna.

 

Seu primeiro namorado, o Túlio, era colega de escola. Ponta esquerda titular do time do futebol, tinha uma certa fama de galã. Costumava aparecer na casa de Fernanda para estudar, ocasiões em que se encafuavam no escritorinho do pai dela e, evidentemente, aproveitavam para bolinações em demoradas seções de beijos como só os adolescentes conseguem realizar, com proezas de algumas horas incessantes de esfregação e saliva abundante.

 

Atacada ao final de cada bimestre, quando se aproximavam as provas e Túlio tinha pretexto para se trancarem no escritorinho, Fernanda começou a se sentir vencida e, fraquejando, numa noite quente de verão, concedeu a Túlio uma carícia mais ousada, que a fez engasgar.

 

No dia seguinte, preocupada com as conseqüências de sua luxúria na vida post-morten, Fernanda foi se confessar.

 

- Quais são seus pecados minha filha?

 

Resignada a conseguir o perdão de Deus, Fernanda não se permitiu um minuto de dúvida, declarou escancaradamente para o sexagenário que dormitava tranqüilo:

 

- Fiz sexo oral com meu namorado, padre.

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 Escrito por Paulo Magalhães às 08h24
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- Ah? Ah... Ah! Arf, arf, arf...

 

- Padre, o senhor está bem?

 

- Ah... Ah... , já sim, filha, já sim.

 

- Qual minha penitência?

 

- Filha, primeiro: dispenso os detalhes, diga apenas que pecou contra a castidade. Segundo: penitência, sem arrependimento, não a livrará de sua merecida condenação ao suplício infernal.

 

O padre descreveu um quadro tão tenebroso que Fernanda despachou o pobre Túlio assim que o encontrou.

 

Mas Fernanda era cobiçada por seu corpo e tinha muitos pretendentes.

 

Seu segundo namorado, menos afoito, demorou dois meses para chegar a uma maratona labial de sucções e lambidas que se comparasse às promovidas por Túlio.

 

Fernanda tratou logo de se confessar:

 

- Padre, pequei novamente contra a castidade.

 

- Meu Deus, filha, de novo aquilo, aquela perversão?

 

- Não padre, não aquilo, eu só beijei muito!

 

- Beijou muito aquilo?

 

- Não aquilo, exatamente aquilo... mas outros aquilos, padre.

 

Fernanda levou para casa uma série de ladainhas para desfiar.

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 Escrito por Paulo Magalhães às 08h22
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Passaram-se os anos, Fernanda já estava na faculdade de direito, e ainda não conseguira realizar seu sonho: quando as coisas começavam a esquentar, suas conversas apavorantes com o padre esfriavam a fervura que tanto trabalho dera a seus namorados para por em ponto de ebulição.

 

Até que um dia Fernanda conheceu o Zé Carlos. Cliente do escritório em que estagiava, Zé Carlos era um refinado executivo, de gestos quase efeminados de tão contidos. Durante uma reunião de que participava como ouvinte atenta, Fernanda detectou alguns olhares indiscretos dele para seu decote, que apesar de moderado, não podia esconder a perfeição e a opulência com que a natureza a beneficiara neste importante quesito para alimentação da prole.

 

- Bonito crucifixo, doutora. É de Compostela?

 

Depois da reunião Zé Carlos contou que era peregrino contumaz do caminho de Santiago. Convidou-a para almoçar no dia seguinte e mostrar as fotos todas que tinha de suas viagens penitentes, ora enfrentando a neve, ora sendo cozido pelo calor do verão da Galícia.

 

Casaram-se dali um ano, período que se passou sem a necessidade de grandes confissões de Fernanda ao ressabiado padre. Eram vistos sempre de mãos dadas na missa dominical. Às vezes auxiliavam na comunhão.

 

A noite de núpcias foi uma revelação para Fernanda, uma experiência quase mística, beatífica. Livre dos pudores que refreavam toda sua libido durante anos de sofrida abstinência e penúria, entregou-se para um Zé Carlos até então desconhecido.

 

Zé Carlos freqüentara, incógnito, desde a puberdade, todas as casas suspeitas de São Paulo, locais onde aprendeu, como aluno esforçado, tudo que Fernanda queria encontrar no casamento.

 

Alguns dias trancados no quarto se passaram antes de Zé Carlos resolver buscar as malas no carro, esquecidas lá pela pressa com que Fernanda o carregou para a cama.

 

Contemplando extasiada o espelho no teto, Fernanda suspirou em voz alta:

 

- É, Deus existe! – Convicta de que iria diretamente para o céu.

FIM

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 Escrito por Paulo Magalhães às 08h19
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