O TERMÔMETRO ELETRÔNICO.

 

Na véspera da menina completar dezesseis anos, a mãe de Valesca perguntou o que ela queria de aniversário.

 

- Um termômetro eletrônico. Pra medir febre.

 

Não causou mais estranheza o inusitado pedido porque Valesca acabara de se tornar mocinha. E a família entendeu que se tratava de uma manifestação psicológica dessa atribulada fase da vida.

 

- Queria ser médica! – esta resposta convenceu a todos de que o desejo poderia ser normal.

 

Valesca passava o dia com o termômetro debaixo do braço, fazia anotações em caderninhos e consultava tabelas em livros.

 

- Ainda brinca de médico! – ria-se o pai.

 

Mas, passado o verão na praia, onde Valesca gastava boa parte do tempo se bronzeando ao sol, de bruços, com as nádegas expostas ao escrutínio popular, sua mãe começou a se preocupar.

 

Valesca usava roupas mais ousadas, se maquiava o tempo todo, parecia avoada e agora - sua mãe não conseguia entender o porquê -, passava as tardes, depois da escola, ajudando os irmãos a lavar o velho Dodge Polara ou o Opalão duas portas, únicos bens da família, fora o sobradinho.

 

- Coisas da idade, Cida! – dizia o pai para sossegar a mãe – Já é uma mocinha... Calma que ela ainda não descobriu que pode fofocar no telefone, aí é que vai ser...

 

Quando Valesca apareceu em casa com um pircing no umbigo, Dona Cida se decidiu a tomar uma providência, por mais que o marido insistisse:

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 Escrito por Paulo Magalhães às 10h03
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- Isso hoje é normal... queném se fosse brinco... Todo mundo tem, é para ela poder dançar imitando a Kelly Ky, você já viu que gracinha, ela imitando a Kelly Ky, Cida?

 

Não, Cida não vira e nem queria ver.

 

- Ô Otávio, será que você não está vendo que ela anda muito exibida por aí, não?

 

- Que é isso, mulher, ela ainda brinca de médico... Você não vê essa história do termômetro, de um lado para o outro, escrevendo receitinhas...

 

Dona Cida já desconfiava, mas com essa resposta passou a ter certeza:

 

- Brinca de médico! Otávio, ou você está sendo muito irônico ou deve estar é com mal de Alzheimer! Vai se tratar, procurar ajuda profissional!

 

Dona Cida resolveu socorrer-se com a Fernandinha, filha de sua comadre e vizinha, que tinha um filho pouco mais velho que Valesca. Fernandinha se tornara uma lenda no bairro depois que se casara com um industrial e se mudara para o Morumbi. Agora uma balzaquiana elegante, Fernandinha, quando menina, costumava passar as tardes brincando de babá da Valesca, muitos anos atrás.

 

- Oi, Dona Cida, que saudades da senhora... – Fernanda chegou para o chá e foi surpreendida por um surto de lágrimas da matrona.

 

- Que é isso, Dona Cida, vai ver a senhora está exagerando...

 

- Galina, Fernadinha... maçaneta... sabonete de quartel...

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 Escrito por Paulo Magalhães às 10h02
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Valesca entrou na sala saltitante. Com a roupa úmida de lavar os carros, vestia um antigo jeans retalhado para se transformar num shortinho minúsculo e uma camiseta branca aderente ao seu torso juvenil e lampeiro.

 

- Oi, Fêeee! Quanto tempo! Vou me trocar, que tou toda molhadinha, e a gente conversa, já, já.

 

Dona Cida balançava a cabeça, desencantada com a vida. Seu Otávio dormia no sofá em frente à TV que apresentava um grupo onde menininhas dançavam na boquinha da garrafa, num concurso infantil. Fernanda subiu discretamente atrás de Valesca.

 

- Posso entrar? – espiou pela porta entreaberta do quarto.

 

Valesca media a temperatura, compenetrada.

 

- Quer ver meu pircing, Fê? – e tirou a camiseta, revelando a bijuteria no umbigo.

 

- É, ficou bonitinho... Mas você tomou cuidado, era um lugar decente, limpinho?

 

- Tomei, claro que tomei. Perigoso mesmo é nas mucosas, nas regiões que desprendem secreções. Esses eu pus com um médico, amigo meu... ele nem cobrou.

 

- Mucosas? Secreções?

 

- É, os meninos ficam alucinados! Quer ver como ficou? – e foi tirando o shortinho...

FIM

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 Escrito por Paulo Magalhães às 10h01
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