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Contos de Paulo Magalhães

UM CORPO PARA CIÊNCIA

 

Pela quarta vez naquele dia, vigésima na semana, centésima quarta no mês, qüingentésima quarta no ano e milésima nongentésima oitava vez na vida, desde de sua primeira menstruação, Valesca mediu sua temperatura e anotou num caderninho, cheio de tabelas e gráficos.

Fernanda dirigia o carro, dava carona para o trabalho, e ficou intrigada:

- Valesca, me conta, pra que cê mede sua temperatura o tempo todo? Que mania estranha... É alguma doença?

- É que eu gosto de conhecer meu corpo. Eu sei exatamente em que fase do ciclo menstrual eu estou, se vou ovular, se vai pintar uma cólica, coisa assim. Sabia que medindo a temperatura eu posso saber exatamente o momento ideal para fertilizar um óvulo, o momento de maior fertilidade?

- Nossa! Que super útil... E pra que, sua louca?

- É que eu preciso me cuidar. Cê sabe como é, né Fê, camisinha pode estourar...

- Pode é? Não sabia.

- Nunca aconteceu contigo?

- Eu nunca transei de camisinha...

- Que louca? Você não tem medo de doença?

- Não é nada disso, eu sou casada.

- Mas é bom não vacilar. Sabe como é, aquele negócio estoura dentro de você, cê nem percebe, quando o cara tira, é aquela lambuzeira, você encana na hora, mó neuras... empata tudo, na hora!

- Não precisa revelar os detalhes... Mas, então, quando cê tá fértil você não transa?

- Bom, também não é assim, não deixo botar lá, mas sempre se pode tomar um caminho alternativo, hehe!

- Meu Deus, Valesca! Você parece que não tem vergonha na cara! Tem dezesseis anos de idade e já vem falando todo esse tipo de coisa! Que é isso?

- Relaxa, eu não dou pro primeiro que eu fico, não. O cara tem que namorar comigo, uma semana, duas. Aí depois eu libero.

- Depois eu libero! Eu libero! Meu Deus, Val, você não se valoriza, não? “Libero a mixaria, galera, vem que eu gosto!”. Parece uma coisa que cê distribui pros machos mais comportados...

- Agora você também vai me chamar de galinha, é? Não esperava isso de você, Fê, não mesmo... – e começou a choramingar... – pensei que tivesse uma mente mais aberta, mais receptiva ao novo papel das mulheres na sociedade!

- Calma, desculpa... Mas você às vezes me tira do sério... tão novinha...

- Posso ser nova, mas faço questão de conhecer meu corpo em sua total potencialidade!

- Conhecer teu corpo, tudo bem, mas não precisa se esforçar tanto para todo mundo conhecer tão bem quanto você!



 Escrito por Paulo Magalhães às 11h39
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